A dor de um guardião
João saiu de casa já meio trôpego. A garrafa de uísque , um pouco abaixo da metade, denotava o que ele havia feito horas antes. Do alto de um poste eu o vi, com seu terno mais bonito, um risca de giz prata. Estranho ele sair aquela hora, tão bem arrumado. Sua mão estava cerrada junto ao peito. O caminho daria para a ponte da cidade. Segui-lo , como o era de se esperar.
Sempre do lado dele, o ouvi choramingar baixinho, que hoje seria o dia. Alguma coisa me disse que nada ia dar certo naquela noite. E se minha memória não falhasse, completariam-se 15 anos da morte de sua mulher.
Chegando na ponte, ele abriu a mão e deixou cair a aliança do seu casamento. A garrafa produziu um som estridente quando se quebrou no chão. João começou a subir no parapeito.
Não sei como Deus iria reagir... Só sei que fiz a ultima coisa que nós devemos fazer, e só em casas de extrema necessidade: me materializei na forma humana.
Por pouco João não se atirou. Meus braços o seguram no derradeiro instante e o puxaram para trás. Lágrimas escorreram pela sua face, quando ele começou a berrar, chorando, para que eu o deixasse fazer aquilo. Ele urrava que não agüentava mais a solidão, que via o rosto de sua mulher em cada objeto utilizado por ela, e sentia seu perfume inebriante no travesseiro, mesmo depois de 15 anos de sua morte...
E ele chorou como uma criança, em meu peito ...
Eu sentia aquele sofrimento. Era tangível. Ele exalava dor pelos poros. O que eu fazia era afagar seus cabelos, dizendo baixinho que Deus iria ajudá-lo...
Enfim ele dormiu, ali, em meu colo, com os olhos vermelhos de tanto choro. Foi então que eu orei, com a fé mais profunda que eu já havia tido, para que Deus ouvisse as minhas preces, e ajudasse João...
E Deus ajudou ... Senti que seu coração, já fraco pela idade, pulsava cada vez mais lento , até parar... João havia morrido em meus braços... Sua face ficou serena ...
E, pela primeira vez na minha existência de 3000 anos, chorei. Não sei se foi bem choro, mas uma lágrima fugidia e cristalina rolou face abaixo ao encontro da outra face, a de João. Engoli em seco e então o levei, voando, para casa.
Por algum tempo houve o comentário que naquela noite de lua nova, uma estrela subiu da ponte da Esperança em direção ao bairro dos Serafins, entrou na casa de n.º 34 , e desapareceu após isso.
Poucos sabem , mas após deixar o corpo inerte de João em sua cama, voei alto para o céu. E como faz um anjo da guarda em seus momentos de tristeza, pus-me a tocar harpa, solitário e melancólico, em uma nuvem chuvosa, longe do trono de Deus.
Rei Uther Pendragon (Luiz Alfredo)
2000-04-07